Deméter a deusa nutridora e mãe

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Estou encantada com a interação que temos recebido com o tema das Deusas Gregas. Não acredito em acaso, portanto acho que é o resultado de  vivermos o momento da recuperação dos aspectos femininos do Ser. Conhecer o poder arquétipico da Deusa, pode ser profundamente transformador, especialmente para as mulheres que desejam curar-se das feridas do longo patriarcado, ora enfraquecido, mas ainda atuante.

Hoje então, o dia é dedicado à Deméter, a deusa do cereal, conhecida pelos romanos como Ceres (de onde se origina a palavra cereal). Venerada como uma deusa mãe, especialmente como mãe do cereal e da jovem deusa Perséfone. Foi a quarta esposa real de Zeus, precedendo Hera que foi a sétima e última esposa. Da sua união com Zeus nasceu Perséfone, com quem Deméter esteve sempre ligada no mito e no culto.

O mito de Deméter e Perséfone concentra-se ao redor da reação de Deméter ao rapto de Perséfone, pelo irmão de Deméter, Hades, deus do Inferno. Este mito tornou-se a base dos mistérios de Elêusis, os mais sagrados e importantes rituais religiosos da Grécia antiga por mais de dois séculos.

Deméter ouviu os gritos de socorro de Perséfone durante o rapto e apesar de seus esforços durante nove dias e nove noites, por terra e por mar, não conseguiu recuperá-la. Ressalte-se que durante sua busca não parou para dormir, comer ou banhar-se. Gritou pela ajuda de Zeus (o pai) mas ele sequer respondeu. Ao final do décimo dia Deméter encontrou Hécate – deusa da lua escura e das encruzilhadas que lhe sugeriu pedir ajuda a Hélio, o deus do sol.  Hélio, então revelou-lhes que Perséfone tinha sido raptada por Hades e o que era pior com a aprovação de Zeus. Além da revelação sobre o paradeiro de Deméter, Hélio também a aconselhou a aceitar o fato como consumado, afinal era a vontade do pai.

Claro que Deméter recusou o conselho, disfarçou-se de mulher velha e vagou sem ser reconhecida pelas cidades e campos, sentindo-se ultrajada e magoada pela traição de Zeus ao permitir que lhe roubasse a filha. Longe do Olimpo, permaneceu inativa em seu pesar. Abandonou seu trabalho ao qual se dedicava incessantemente ensinando aos homens o plantio e a colheita dos cereais. Decidiu não voltar ao Olimpo até que sua filha lhe fosse devolvida. Culpava a terra por ter aberto a passagem pela qual Hades levara Perséfone e disse: Ingrato solo, que tornei fértil e cobri de ervas e grãos nutritivos, não mais gozará de meus favores! Durante este período a situação se tornou caótica, a terra se tornou estéril, os grãos não germinaram, o gado morreu e a fome e as doenças ameaçavam dizimar a humanidade. Ao saber dos acontecimentos Zeus enviou mensageiros a Deméter para implorar a Deméter que voltasse. Esta, furiosa, informou que só voltaria ao Olimpo, quando Perséfone lhe fosse devolvida. Diante de sua obstinada recusa em voltar Zeus ordenou a Hades que devolvesse Perséfone à sua mãe. Depois de reunida com sua filha, Deméter devolveu a fertilidade e o crescimento à terra e também propiciou os Mistérios Eleusianos. Através dos mistérios, as pessoas encontravam razão para viver com alegria e morrer sem ter medo da morte.

A história de Deméter e Perséfone deixa claro que Deméter representa principalmente o arquétipo da mãe, representando o instinto maternal presente na gravidez ou através da nutrição física psicológica ou espiritual dos outros. Na presença deste poderoso arquétipo uma mulher poderá impactar fortemente a vida dos outros ou à sua própria com uma depressão por exemplo, na hipótese da sua necessidade de alimentar seja rejeitada ou frustrada.

Conforme você percebeu no mito o arquétipo da mãe foi representado por Deméter , cujos papéis mais importantes foram o de mãe (de Perséfone) e de fornecedora de alimentos (como deusa do cereal) e de alimento espiritual (os mistérios eleusianos). Observe que apesar da deusa Hera também ser mãe, no caso de Deméter, a filha era o relacionamento mais significativo para ela.

A mulher cujo arquétipo forte é Deméter deseja ardentemente ser mãe. É o papel que supõe a tornará realizada. Ser mãe é o papel mais importante e funcional da sua vida. O arquétipo da mãe motiva as mulheres a nutrirem os outros, a serem generosas no dar e a sentirem-se satisfeitas e plenas no papel de alguém que zela e provê a subsistência do outro. O arquétipo entretanto não está restrito apenas ao ser mãe. Também está presente quando escolhemos profissões de ajuda – ensino, enfermagem, aconselhamento ou qualquer função a qual ajudar ou educar os outros é parte do papel.

No nível biológico o arquétipo de Deméter, representa o instinto materno: o desejo de engravidar e ter um bebê. Como provedora de alimentos, ela adora amamentar seu próprio filho. Assim como tem imenso prazer em alimentar sua família e convidados.

A persistência materna é outro atributo de Deméter. Temos aí milhares de exemplos da luta das mães pelo bem estar de seus filhos, como as mães argentinas conhecidas como as “Madres de la Plaza de Mayo”que se recusaram a resignar-se com a perda dos seus filhos para a ditadura militar e mais recentemente as “Mães de Acari” que há  mais de vinte anos lutam por justiça pelo desaparecimento do seus onze filhos, na favela de Acari no Rio de Janeiro. E tantos outros exemplos famosos e não famosos de mães que nunca desistiram de seus filhos sejam quais forem as suas dificuldades.

O arquétipo da mãe proporciona tres níveis de oferta aos seus filhos: iniciam provendo suas necessidades físicas, depois apoio emocional e compreensão e finalmente tornam-se fonte de sabedoria espiritual, especialmente quando precisam ressignificar a vida.

Certamente que todos identificamos facilmente a mulher do tipo Deméter: maternal, em seus relacionamentos ela é nutridora, prestativa e doadora. Frequentemente tem a aura da Mãe Terra ao seu redor. É sensata, digna de confiança, generosa e leal para com os indivíduos e princípios, a ponto de ser considerada teimosa . Dotada de fortes convicções, não é fácil demove-la quando algo ou alguém importante para ela está envolvido.

Um aspecto interessante da mulher do tipo Deméter é que ela não compete com outras mulheres por causa de homens e realizações. Quando surge alguma inveja ou ciúme de outras mulheres, certamente será por conta dos seus filhos.

Quando o arquétipo é forte, a mulher do tipo Deméter atrai homens que sentem afinidade por mulheres maternais e curiosamente não é ela que faz a escolha do parceiro, mas responde a necessidade dele por ela, muitas vezes até por pena. Assim é importante que as mulheres tipo Deméter fiquem muito atentas aos tipos de homem que pode atrair: desde o imaturo, absorvido em si mesmo, egoísta, que busca nela o apoio que o resto do mundo lhe nega, exatamente por seu comportamento irrefletido, passando pelo sociopata, incapaz de quaisquer sentimentos, cobrando atenção e doação o tempo todo. Sua cobrança para o suprimento de suas carências acabam por suscitar a sempre generosa resposta de Deméter: dar. Este relacionamento é devastador para Deméter e pode obstruir sua vida emocional durante anos, podendo inclusive destruir sua vida financeira. A boa notícia é que existe o “homem familiar” que também se atrai pelas qualidades de Deméter: ele próprio é amadurecido, generoso e fortemente motivado pelo desejo de ter a sua família. Será um bom pai para os filhos da mulher tipo Deméter, além de estar atento a ela, ajudando-a dizer não quando necessário, evitando o esgotamento pela doação contínua.

A mulher que se identifica com Deméter age como uma deusa generosa, maternal, com uma capacidade ilimitada de prover. Seu desafio entretanto é escapar da tentação de monopolizar seus filhos, em nome do que considera seus melhores interesses (dos filhos). Algumas dessas mães vivem sempre apreensivas temendo que algo ruim aconteça ao seus filhos, limitando a independência de sua criança, desencorajando a formação de relacionamentos saudáveis com os outros. Com a intenção de proteger seus filhos pode tornar-se super dominadora, o que frequentemente resulta numa criança dependente dela para lidar com problemas e pessoas. Outro modelo negativo de mães do tipo Deméter é a que não sabe dizer não, criando filhos que crescem sentindo-se com direito a consideração especial e mal preparados para se conformar com determinadas situações. A mulher tipo Deméter que aprendeu a encorajar seus filhos à independência e ao respeito mútuo, com certeza não terá que lidar com a ‘síndrome do ninho vazio’ que fatalmente a transformará na vítima, sentindo-se triste e magoada como quando no mito teve sua filha raptada. Como no mito, permanecerá inativa, sem dar permissão para que nada de novo cresça.

A síndrome do ninho vazio pode evoluir para uma depressão agitada, na qual  pode personificar a deusa pesarosa que na sua busca por Perséfone (a filha), vagou insone, sem comer e sem banhar-se. Ou  pode sentar-se imóvel, retraída e incomunicável assumindo uma depressão severa e apática.  Tudo isso pode ser evitado se a mulher do tipo Deméter tomar quatro medidas preventivas:

1) aprender a expressar a raiva em vez de refreá-la em seu íntimo;

2) aprender a dizer não, evitando-se tornar-se esgotada, magoada e vitimada;

3) Aprender a “abrir mão e a deixar crescer” os filhos, clientes ou subordinados, evitando que se sintam ressentidos e queiram/precisem libertar-se dela;

4) e finalmente, desenvolver outras deusas em seu interior, de modo a ter interesses adicionais, além o de apenas ser mãe.

A mulher do tipo Deméter precisa ficar muito atenta à sua dificuldade de dizer não. Dizer sim a todos que precisam de nós é fazer a opção da sobrecarga. Nossos recursos não são ilimitados. Logo, ao invés do sim instintivo, que é a resposta usual de Deméter, deve ser capaz de dizer não, tanto para a pessoa que precisa de alguma coisa como para a deusa interior.

A proposta para o crescimento do arquétipo da deusa Deméter passa primeiramente pelo auto conhecimento, de modo que reconheça seus aspectos negativos (que é o maior obstáculo), – afinal sua maior identificação é com a mãe generosa, que resiste em admitir alguns sentimentos, principalmente a raiva em relação aos que ama. Mais uma vez a consciência aqui (que tanto falamos aqui no Ser Integral) é que vai fazer a diferença e tornar a tarefa de mudar o comportamento mais fácil de executar. O passo seguinte é tornar-se sua própria mãe, focando em si mesma o zeloso interesse que sente pelos outros.

Achei uma delícia pesquisar Deméter, perceber a minha identificação com alguns de seus aspectos, tanto positivos quanto os negativos e sobretudo perceber as possibilidades de crescimento com ela. Como uma experiência interior, o mito de Deméter e Perséfone fala, também, da nossa capacidade de crescer através de um sofrimento, uma dor. E principalmente saber que podemos viver através do que quer que aconteça, aprendendo que assim como na natureza, à primavera segue-se o inverno, também a experiência humana obedece a ciclos e por consequência a mudanças. Afinal o que temos de permanente na vida é de que tudo vai mudar. Graças a Deus e à Deusa que é assim. Mudar para renovar, para crescer, Evoluir.

Desejo todas uma semana abençoada e plena de paz. Continue curtindo e compartilhando nossa fanpage Ser Integral, para que mais mulheres possam acessar a energia poderosa das deusas.

Abraço carinhoso e até o próximo post.

Fonte: Wikipédia

Withmont Edward – O retorno da Deusa

Bolen S Bolen – As Deusas e a Mulher

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