Hera a deusa do casamento, do compromisso e da esposa

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 No post passado iniciamos o tema das tres deusas vulneráveis (não viu? vale a pena dar uma olhada. Clique neste link http://bit.ly/deusasSerIntegral). Hoje vamos aprofundar um pouco mais sobre o arquétipo de cada uma delas, iniciando com Hera, a deusa do casamento, do compromisso e da esposa.

Hera, a deusa grega, imponente, real e bela, conhecida pelos romanos como Juno, cujo nome pode significar a Grande Senhora, forma feminina da palavra grega herói. Era casada com Zeus (Júpiter) deus supremo do Olimpo, governante dos céus e da terra. Na mitologia grega Hera tinha dois aspectos muito contrastantes: ora era solenemente reverenciada e venerada em rituais como poderosa deusa do casamento e ora difamada por Homero (poeta da época) como víbora vingativa, briguenta e ciumenta.

Foi humilhada e traída por Zeus nos muitos romances extraconjugais que teve com outras deusas, sendo que o mais grave foi  a desonra que sentia em relação ao seu casamento, que era sagrado para ela.  A cada nova humilhação que sofria com as traições de Zeus, na maioria das vezes, Hera reagia com raiva e vingança, ou simplesmente se retirava em peregrinações aos limites da terra e do mar. Lá ficava envolvida na mais completa escuridão, longe de tudo e de todos.

Como deusa do casamento, Hera foi reverenciada e injuriada, honrada e humilhada, tornando-se uma das deusas onde se pode perceber muito claramente atributos positivos e negativos. Ou seja o arquétipo de Hera tem uma força intensamente poderosa tanto para a dor quanto para a alegria na personalidade de uma mulher.

No arquétipo de Hera é muito marcante o desejo ardente de ser esposa. A mulher tipo Hera sente-se fundamentalmente incompleta sem um companheiro. Viver sem um companheiro pode ser uma experiência interior tão profunda e intensiva como o fato de não ter filhos o é para a mulher cujo maior impulso (instinto?) é ser mãe. Necessita do prestígio, respeito e honra que o casamento representa para ela. Quer e precisa ser reconhecida como a Sra Fulano de Tal. 

O arquétipo de Hera é profundamente reforçado pela nossa cultura patriarcal e acaba influenciando até as mulheres que se movem por objetivos de carreira e estudo. Também elas não escapam da pressão e expectativas culturais da realização através do casamento. Por esta razão as mulheres solteiras muitas vezes, se sentem como que excluídas da norma social quando não se apresentam como companheiras de um homem.

Uma característica forte do arquétipo de Hera é a capacidade de estabelecer elo, compromisso, ser leal e fiel, suportando e passando pelas dificuldades da vida com o companheiro. Para a mulher do tipo Hera o compromisso do casamento não é condicional. Entra no relacionamento para os dias bons e ruins. Por esta razão quando decidimos casar ou queremos honrar e permanecer no casamento, além de escolher bem o parceiro disposto ao mesmo objetivo é muito útil invocar E CULTIVAR o arquétipo de Hera em seus sagrados rituais, para caracterizar o casamento também como uma união espiritual, cuja força invocará sua graça e poder para a união.

Se você é do tipo Hera e está desencantada com os homens não interessados em casamento e compromisso, está na hora de reavaliar suas escolhas. Quem sabe não está tendo atitudes preconcebidas em relação aos homens que tem valores tradicionais (querem casar e constituir família)? É bem possível que ao modificar a imagem (que tem dentro de você) do homem ideal, buscando adequá-lo a um tipo de homem com o qual possa estabelecer compromisso (porque ele também quer!)  pode tornar possível a realização que a sua Hera tem de ser esposa.

Sempre me causou estranheza lidar com as mulheres que canalizam a raiva da traição do companheiro para a outra mulher. Conhecer o padrão negativo que Hera manifestou quando desprezada  e humilhada pelas traições de Zeus, me libera do pré-conceito. Hera canalizava como raiva vingativa, dirigida à outra mulher ou às crianças geradas por Zeus, a dor que sentia ao ser rejeitada por ele e ao ser menosprezada por seus romances. O arquétipo de Hera predispõe a mulher a transferir a culpa do seu companheiro – do qual é emocionalmente dependente – para os outros. Para Bolen, na prática do seu trabalho analítico, esta atitude de vingança, é um truque mental que a mulher do tipo Hera adota para sentir-se poderosa e menos rejeitada.

A mulher do tipo Hera tem prazer em fazer do marido o centro da sua vida. Seu filhos compreendem a ordem de sua importância em seu universo: primeiro o marido. Trabalhar fora de casa pode ser um aspecto absolutamente secundário em sua vida. Quando é uma força forte na psique de uma mulher, qualquer que seja sua formação, carreira ou profissão é apenas algo que ela faz, não um aspecto importante que revele quem ela é. Claro que tem mulheres do tipo Hera que são muito bem sucedidas em suas carreiras profissionais, mas quando isso acontece é porque outras deusas estão presentes nela. Para a mulher do tipo Hera sua carreira é o seu casamento e ela sempre a adequará as necessidades de seu marido.

Quando o arquétipo de Hera predomina, supõe que sexualidade e casamento vêm juntos. É o caso das mulheres que ainda hoje permanecem virgens até assumir um compromisso ou se casarem. Preferem ser despertadas sexualmente pelo seu marido e mesmo que isso não aconteça , continua considerando as relações sexuais como parte profundamente sentida de seu papel de esposa. É possível que a idéia de sexo submisso tenha surgido com as mulheres do tipo Hera.

Considera o dia do seu casamento o mais significativo e importante de sua vida. Adora a idéia de adotar um nome novo, porque de fato, se torna a esposa: um sonho acalentado desde sempre. Sua felicidade a partir do casamento, estará para sempre atrelada à importância que ele dará a união e pincipalmente  dependente da apreciação que dela fará como esposa. Sofrerá muito caso seu marido não lhe proporcione esta devoção e envolvimento. Divórcio é palavra que não consta do seu dicionário. E se a idéia de separação partir do marido, será muito muito difícil, praticamente inconcebível para ela aceitá-la. O casamento é uma experiência arquetípica para ela. Terá grande dificuldade em deixar de pensar em si como solteira novamente, gerando sofrimento para si e para os outros.

Bom, agora que muitas de nós já identificamos aspectos de Hera ou a descobrimos como um arquétipo dominante em nós, esta na hora de conhecermos os caminhos para o crescimento e expansão para além do seus limites. Afinal quando a mulher do tipo Hera não desenvolve outros aspectos de sua personalidade com o auxílio dos arquétipos de outras deusas, pode por exemplo, passar de uma depressão de luto  – quando fica viúva – para uma depressão crônica. Especialmente se não criou um vínculo forte com os filho, ou ainda se abandonou suas amizades de solteira  para cultivar apenas relacionamentos como membro de um casal. Para evitar estas duas últimas dificuldades de relacionamento é útil invocar a força de Démeter (a deusa mãe, que ainda vamos falar aqui) e de Ártemis (a grande irmã de todas as mulheres) cujo post já foi publicado aqui no Ser Integral.

Reconhecer a influência de Hera e compreender suas fraquezas, é o primeiro passo para expandir-se além dela. O resultado desta consciência terá papel fundamental para libertá-la do espaço de prisão entre o arquétipo e o reforço cultural. Estamos falando daquelas mulheres que uma vez casadas, sentem-se ligadas para o melhor e para o pior, dificultando sua decisão de sair de um casamento ruim. As crenças religiosas, expectativas familiares, crenças de uma sociedade machista e patriarcal podem “conspirar”para mante-la ligada, por exemplo a um alcoólatra ou espancador de mulheres.

Expandir-se além de Hera é compreender que embora o casamento seja sua principal fonte de significado (e não há nada de errado com isso), limitar-se a ser esposa pode também significar limitar seu crescimento e habilidade de adaptar-se nas situações de divórcio e viuvez. Expandir-se para além de Hera é escolher bem seu futuro marido, considerando sua aptidão para ser de fato seu companheiro. Se você está vivendo a Hera à procura do seu companheiro, vale muito a pena anotar e responder estas questões:

– que espécie de temperamento ele tem?

– é ou está emocionalmente amadurecido? casamento/parceria requer muita maturidade; desejo de acertar;

– até que pronto está pronto e disposto a se estabelecer, constituir família?

– qual o grau de importância fidelidade tem para ele? Já que para você é condição sine qua non (sem a qual não pode ser);

– você o ama de fato? ele é – realmente – o melhor para você?;

– vocês são compatíveis?

Responda estas perguntas, da forma mais honesta possível. De suas respostas depende a felicidade do seu casamento, uma vez que casada, você será dependente do caráter do seu marido e principalmente da sua capacidade de amá-la e respeitar o compromisso com você. Pense nisso!

Expandir-se além de Hera é ser consciente de suas limitações, buscando repetidamente, alinhar-se com outras deusas que lhe permitam crescer além de seu papel como esposa. O marido pode ser um aliado importante nesta tarefa, quando aprende a responder com compaixão à sua necessidade, por exemplo, de saber onde ele está, para onde vai quando sai de casa ou ainda quanto tempo vai demorar para retonar ao lar.  Esta atitude de sua parte permitirá a Hera sentir-se segura e longe da energia negativa e destrutiva do ciúme que mina a confiança e deteriora qualquer relacionamento. Para crescer e expandir-se a mulher deve resistir ao ciúme de Hera, decidindo confiar no marido dando-lhe crédito para apoio e fidelidade. O trabalho também pode ser uma aliado importante na tarefa de afastar a raiva e o ciúme de Hera. Seja ele qualquer espécie: mental ou manual, pode servir como importante ferramenta para sublimar os aspectos negativos, já que é muito mais saudável sublimar a raiva do que permitir que ela cresça e a destrua.

Finalmente, vamos aproveitar o aspecto que Hera tem de reciclar-se. No seu mito ela tem a capacidade de renovação constante, encerrando e iniciando novos ciclos. Seu culto compreendia a veneração da deusa jovem na primavera, a Hera realizada no verão e no outono e a Hera viúva no inverno. Compreender estas possibilidades, permite que possamos sempre recomeçar. Se fizemos más escolhas no passado, podemos fazer diferente agora e iniciar um novo ciclo que poderá ser muito mais positivo.

Eu estou muito feliz de ter feito esta viagem com Hera. Hoje aos 60 anos, relembro que vivi aspectos muito profundos de Hera em meu primeiro casamento e que Deméter, Atena, Ártemis e muito de Héstia agora, me permitiram iniciar novos ciclos. Espero que Hera também seja útil a você.

Desejo a você uma semana abençoada e plena da Luz da Deusa!

Grande abraço e até o próximo post.

Bolen S Jean – As deusas e a mulher – Ed Paulus

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