Saindo do Quadrado na Alimentação

Apesar da imensa biodiversidade de plantas alimentícias, é impressionante como a nossa alimentação é restrita neste quesito. Temos uma grande dificuldade para adotar novos hábitos alimentares, aventurar-se em novos sabores. Um exemplo disso são as leguminosas e os cereais. No caso da leguminosas temos os feijões, a soja, ervilha, grão de bico, lentilha, favas, tremoço etc. Nos cereais vamos encontrar o arroz, milho, cevada, trigo, painço, centeio e a aveia. Entretanto curiosamente nosso prato diário, invariavelmente acaba no feijão com arroz. Nada contra o feijão com arroz. Pelo contrário trata-se uma reconhecida dupla de sucesso já que a combinação dos diferentes aminoácidos, permite o aproveitamento total de suas proteínas. Mas essa propriedade maravilhosa também pode ser encontrada na combinação de qualquer leguminosa e cereal, do tipo lentilha e arroz, grão de bico e milho etc… Vale muito a pena experimentar novas combinações, mesmo que no começo sejam apenas novos feijões. Você já pesquisou quantos tipos de feijão temos à nossa disposição? Feijão azuki, fradinho, de corda, preto, carioca, guandu, jalo, rosinha e por aí vai.

Uma curiosidade sabe a diferença entre uma leguminosa e um cereal, afinal ambos são grãos?

As leguminosas nascem em vagens e os cereais em espigas. Fácil não?

Mas toda esta conversa é só uma introdução para aprofundar uma proposta muito mais radical. Sair do ‘quadrado’ da alimentação convencional e abrir espaço para pelo menos começar a conhecer o universo fantástico das PANC – Plantas Alimentícias Não Convencionais .

As PANC estão por aí e são muitas vezes consideradas ‘daninhas’, invasoras’, ‘matos’, apenas porque ocorrem entre as plantas cultivadas ou em locais onde as pessoas ‘acham’ que não devem ocorrer. No entanto, segundo especialistas reconhecidos na área, são espécies com grande importância alimentícia. Contudo, desconhecidas e muitas vezes negligenciadas por grande parte da população que não consegue nem avançar além do feijão com arroz de todo dia.

Aqui nem vamos entrar no mérito de que o conhecimento e uso das PANC resolveria boa parte dos problemas com a fome no mundo. Elas estão por aí em toda parte, sub utilizadas, apesar de seu imenso potencial nutricional e econômico.

Hoje quero aproveitar minhas andanças por este Brasil a fora para comentar sobre três PANC, uma de cada região que morei. Porque para quem ainda não sabe atualmente moro em São Paulo, mas sou da Bahia e morei dez anos no Sul, em Santa Catarina. Uma benção porque conhecer, morar e conviver com culturas diferentes é fantástico. Fez de mim um Ser mais aberto e muito melhor. Cada vez menos algo me causa estranheza, é apenas diferente, como as PANC que vou falar agora.

A primeira PANC que selecionei é muito usada na minha terra natal, nossa Bahia de todos os santos, terra de dengo e do cheiro (na Bahia trocamos o beijo pelo “cheiro”), da palavra cantada no sotaque baianês, da malemolência, onde afeto e amizade são levados muito a sério por todos nós. Esta PANC me remete aos sabores guardados na minha memória infantil. Era muito bom saborea-la.

Mas vamos à esta plantinha que tem o nome cientifico de Talinum paniculatum (Jacq.) Gaertn e é conhecida popularmente por bredo, lingua de vaca, major-gomes, maria gorda, beldroega-grande, cariru. Em inglês é flameflower. Consumíamos em fantásticos refogados com azeite de dendê e pimenta que davam água na boca só de ver. Mas é uma hortaliça muito versátil, cujas folhas e brotos podem ser consumidos em saladas, mas preferencialmente cozidos, refogados ou utilizados no fabrico de pães caseiros, bolos salgados, suflês e cremes. Agora preste atenção no que ela  – a Talinun paniculatum – tem de mais espetacular, em sua espontânea simplicidade: entre 69 espécies de hortaliças folhosas pesquisadas ela apresentou o maior teor de minerais como ferro, magnésio, cálcio, potássio e zinco, além de alto teor de proteína em base seca.

A segunda PANC conheci em Santa Catarina, mas sei que ela também é bem conhecida dos irmãos das Minas Gerais – terra boa que só!

Trata-se da Pereskia aculeata Mill. chamada pelo povo de ora-pro-nobis, carne de pobre, mata velha, lobrobô etc…

Aprendi a consumir suas folhas em saladas e refogados, mas podemos consumir também suas flores e frutos. As folhas e flores podem ser consumidas em saladas, salteadas puras ou com carnes e para omeletes. Os frutos poder utilizados em sucos, geléia, mousse ou licor. Aos amantes da alimentação viva a boa noticia de que suas sementes podem ser germinadas para produzir brotos, muito grandes e vigorosos.  Com as folhas e ramos  secos e triturados também se pode produzir uma fantástica farinha para ser usada em pães,bolos, farofas, sopas etc…

Verdura rica em proteína vegetal, além de vários aminoácidos essenciais como a Lisina que fortalece o sistema imunológico,  minerais como potássio, cálcio, magnésio, zinco, cobre, ferro, manganês, enxofre e vitaminas B e C.

Estudos realizados na Universidade Federal de Lavras dão conta de que o consumo regular da ora-pro-nobis podem contribuir na prevenção de doenças como câncer de colon, diabetes, tumores intestinais e redução do LDL (chamado de ‘ruim’).

Uma curiosidade, os mineiros gostam tanto da ora-pro-nobis que criaram até um Festival em Sabará onde se pode apreciar preciosas iguarias com a planta, desde pastel, licores, sorvetes e molhos de pimenta até pratos com frango e porco.

Vamos a terceira e última PANC deste artigo que conheci aqui em São Paulo nas feiras do bairro da Liberdade porque é muito apreciada na culinária japonesa.  Vamos falar um pouquinho da Arctium lappa L. conhecida popularmente por bardana, carrapicho grande, cabaça, pega-pega, gobô, etc… Em inglês é chamada de japanese burdock. Suas raízes são usualmente consumidas em saladas como rabanetes, fritas (chips), refogadas com azeite e shoyu, salteadas na manteiga ou ensopadas. As folhas também podem ser consumidas mão são consideradas muito amargas. Rica em potássio e magnésio, também possuem inulina (e não amido) o que a torna muito recomendável para diabéticos.

Muito utilizada na medicina caseira como depurativa entre outras propriedades, para tratar doenças como reumatismo, gota, doenças de pele entre outras.

Interessante lembrar  que a maioria das Plantas Alimentícias Não Convencionais, crescem espontaneamente em solos agrícolas lavrados anualmente,pomares hortas, terrenos baldios e beiras de estrada de todo o país, sendo considerada plantas ‘daninha’. Ou seja estão por aí em toda parte, oferecendo-se generosamente para todos.

A bardana é cultivada em hortas domésticas principalmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, para emprego na medicina popular e em preparações da culinárias principalmente da cozinha japonesa.

Nossa conversa sobre este assunto está apenas começando, portanto se você gostou do tema, poste sua opinião, para que possamos continuar trazendo conteúdos que de fato agreguem valor para o seu dia a dia. E se gostou muito compartilhe com seus amigos, sua família, nas redes sociais que curte.

Mas antes de terminamos nossa prosa, me conte se tem alguma planta que você comia na infância e que desapareceu da sua mesa?

Grande abraço, nos vemos no próximo post.

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3 comentários em “Saindo do Quadrado na Alimentação

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  1. Olá, sempre ouço dizer das plantas espontâneas são o remédio que a natureza nos envia. Apos fazer uma cirurgia de urgência para extração de calculo renal e pelo ultrassom descobri figado gordo. Ao chegar em casa apos a alta encontro um pé de capeba vigoroso em um vaso. tenho muita vontade de incluir um folha de capeba no meu suco verde, mas não achei nada sobre o seu consumo cru. Vc tem alguma informação sobre o uso cru da capeba ou pariparoba. Gratidão!

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    1. Olá Maria Ines,

      Imensa gratidão por seu contato.

      Concordo com o que o você sempre ouve sobre as plantas espontâneas. Elas são um presente da natureza para nós. Já comi a capeba/pariparoba refogada e achei uma delícia. Seu uso está descrito no livro PANC no Brasil do Kinupp e Lorenzi, do Instituto Plantarum. Estou longe do meu exemplar, mas prometo que assim que o tiver em mãos, confiro para você e te informo se elas a testaram crua.
      Você também pode adquirir o livro pelo link:https://www.plantarum.com.br/prod,idloja,25249,idproduto,4689459,livros-em-portugues-plantas-alimenticias-nao-convencionais–panc–no-brasil
      E conhecer uma seleção maravilhosa de plantas espontâneas.
      Grande abraço e toda luz!

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      1. Olá Maria Ines, como te prometi, verifiquei o uso cru da capeba e encontrei uma única referencia ao seu uso como suco. (BERG. Plantas Medicinais da Amazonia apud Kinupp e Lorenzi PANC NO BRASIL). Creio que por tratar-se de uma ‘pimenta’ e planta aromática deve ser usada com parcimônia. De qualquer forma, experimente como chá e refogada como couve. É muito bom! Abraços

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